Mã Cacai – Uma História de 11 Décadas

Tia Cacai ou Mã Cacai, a filha mais velha de Ribeira Prata e uma das mais idosas de Cabo Verde, completou 110 anos de vida em Dezembro de 2016.

Era num dia como este, 28 de Dezembro de 1906, em São Nicolau, mais precisamente em Ribeira Prata,  “Terra de Rotcha Scribida”, que   nascia  Clara Ana Vieira,   Mã Cacai, ou simplesmente Cacai,   completando a alegria do casal,  Ana Vieira e   António  Santos,  que já tinha  sido abençoado com  três rapazes.

Porque a felicidade nem sempre perdura, em Janeiro de 1908, 13 meses depois, a mãe, Ana Vieira, faleceu, deixando ao pai a difícil tarefa de cuidar, proteger e amar os quatro filhos menores.

Isso mesmo, minha gente, Cacai, não chegou a conhecer a mãe, não se lembra do rosto da mulher que lhe deu a vida; A sua memória de bebé não conseguiu preservar essa imagem, e , porque ainda não se falava em tecnologia “ Cacai ca conchê sê mãe, nem na ratrot” e se há passagens da vida dela que lhe tiram lágrimas, esta é uma delas.

Se estão a imaginar Cacai e os irmãos a serem educados por uma madrasta má, enganaram-se. O pai poupou-lhes deste sacrifício. Acreditem, este cabo-verdiano, nunca mais se casou e, embora tivesse   tido outra mulher, com quem teve duas filhas,  decidiu mantê-la, mas  longe da casa que, um dia, fora da sua Ana.

Cacai, apesar de ter ficado órfã ainda bebé, foi uma criança muito amada, o pai e os irmãos que lhe encheram de carinho, decidiram que não delegariam a responsabilidade da sua educação a ninguém, até o dia, em que não aguentando a dor de ver o filho ocupando das lides da casa, com a irmã nas costas, o pai desatou aos prantos, chamando a atenção de uma vizinha, que sensibilizada com a situação,  convenceu-o a lhe entregar a miúda para criar.

Durante 13 anos “Antó Canda” cuidou de Cacai, dando-lhe o melhor que pôde, mas os irmãos e o  pai, que nunca se conformaram  com ausência da menina dos seus olhos, decidiram levá-la de volta para casa com 14 anos. Os irmãos tinham crescido tornando-se em jovens trabalhadores e responsáveis e, a irmã cujo corpo ia ganhando curvas, tornara-se numa linda menina.

Os manos protectores, Manuel, Joaquim e Vitorino, projectaram o melhor para irmã e, à semelhança de todo encarregado de educação,  idealizaram um casamento de princesa para a mana, que  aos  18 anos era uma belíssima menina.  ( Estão a ver Cacai,  hoje, com 110 anos, toda  posta e jeitosa?  Agora fechem os olhos e tentem vê-la jovem, com 20 anos….. Vou vos deixar fazer esta viagem. O que viram? Não digam nada, já sei, se fosse qualquer um de vós arranjariacom certeza, um “manduco”  para protegerem a vossa irmã das garras dos seus muitos pretendentes.

Cacai que, certamente, a beleza interior e exterior conquistou muito corações, viria a se apaixonar por Marcos António,  com quem se casou a  29 de Março de 1927,  na  igreja da Vila de Ribeira Brava.

A primeira filha do Casal, Ana Maria, nasceu no ano de 1928 e depois vieram mais 5 filhos, 3 meninas e 2 rapazes.  Rodeada do marido e dos filhos,  Cacai era uma mulher feliz, até que a morte lhe roubou o seu amado, no ano de 1934, ficando viúva,  com seis filhos para criar.

Como consolar uma menina de 28 anos viúva, sem trabalho, e com 6 filhos para alimentar? (sim, ela não passava de uma menina), Não há como, esta não é tarefa de  humanos,  só um “Ser Protector”  tem capacidade para tal.

Mas esta mulher corajosa, não vergou, entre morrer de desgosto e lutar para criar os filhos, escolheu o mais difícil: Viver para ver crescer os seus rebentos.

Mas, mais uma vez o destino não lhe poupou de desgosto e roubou-lhe os seus dois rapazes, António e Luís. Esta valente mulher, chorou, enterrou os seus meninos e, mais uma vez, decidiu viver para criar as suas meninas, mas acabaria por perder também a filha Maria.

O ano de 1940 chegou acompanhado de muita fome, lá longe os homens armados combatiam  numa das maiores  lutas da história da humanidade, a 2ª guerra mundial, e o povo das ilhas, longe do campo de batalhas,  sofria  as consequências de uma crise mundial, que aliada ao  longo período de seca, tornou a vida dos cabo-verdianos e, principalmente das ilhas agrícolas, um verdadeiro massacre.

Valeu à família  “Vitor”,  o facto de um dos filhos Vitorino ter emigrado para  a América, de onde ocasionalmente  chegava alguma ajuda.

A situação que se vivia em são Nicolau impelia as pessoas a abandonarem a ilha, e Cacai, com 3 meninas, para alimentar decidiu aventurar a sua sorte em São Vicente, felizmente, uma prima   prontificou-se em recebê-la com as crianças.

Se a ligação São Nicolau/ São Vicente, hoje em dia,  não, é fácil imaginem a situação sete décadas atrás.  Para facilitar, embarcou as duas filhas maiores, Ana Maria e  Tudinha, para numa próxima volta do navio,  viajar com a mais nova, a Martina.

Mas mais uma vez, o destino lhe foi severamente cruel, pois acabaria por perder a  sua casula, a filha  Martina,  dias antes da viagem.

Não lhes vou pedir para imaginarem a dor dessa mãe, porque sei que já a estão vivendo.

Como aguentar a morte do marido e de quatro filhos, em tão curto espaço de tempo?  De facto, isto não é para qualquer um. A vida mais uma vez lhe pôs à prova e, mais uma vez, ela fez a escolha mais difícil: viver, para cuidar e  amar as duas filhas, que  a aguardavam em São Vicente.

E foi com o coração a sangrar saudades da família, da casa que a viu nascer, dos amigos e da sua querida Ribeira Prata, que decidiu mudar para São Vicente, para se esconder da fome (como ela própria costuma dizer).

Envolvida no seu luto, e banhada em lágrimas, a mulher sofrida, a viúva de 34 anos, embarcou no navio Ribeira Brava, na esperança de um futuro melhor, principalmente para as suas duas meninas. Mal soubesse que aquela viagem iria mudar para sempre o rumo da sua história, uma história, marcada de morte, de dor, de separação e de saudade.

Foi naquela angustiante viagem, durante a qual chorou pela perda dos seus ente-queridos, de saudade da casa  e  dos seus manos, que chamou a atenção de um dos tripulantes do navio. Na verdade, debaixo daquele vestido preto escondia uma bela mulher, cujas curvas despertavam o interesse de qualquer cavalheiro, mesmo o menos atento.

Acreditem, mas nem a correnteza das lágrimas, que insistiam em cobrir o seu rosto, conseguiu ofuscar a sua beleza e revelar a sua verdadeira idade. Pois, Cacai, apesar dos seus 34 anos  e de carregar a dor da perda do marido e de 4 filhos, tinha um ar jovial, e, não aparentava ter mais que 24.

Dizia eu, que Cacai  chamou a tenção de um dos tripulantes do navio,  e foi precisamente o Capitão,  Francisco Romão, conhecido por  Chico de Ribeira  Brava.  O Capitão não conseguiu ficar indiferente perante a mulher de preto. Aproximou-se, e perguntou-lhe se trazia luto da mãe, ou do  pai, e tal foi o seu espanto, quando Caicai lhe respondeu  que era viúva e tinha acabado de perder  uma filha.

Certamente, conseguem imaginar o misto de sentimento do nosso Comandante, apaixonado,  que não perdeu a oportunidade de recolher a máxima informação da mulher, que tinha conquistado o seu coração.

Em São Vicente, Cacai foi acolhida pela prima, que morava em Ribeira Bote, e foi ali, que  “Chico  “Capton” a foi encontrar dias depois.

Durante 4 anos Chico tentou conquistar  o coração de Cacai, até que a convenceu a ir viver com  ele,  e, um ano depois nascia a  primeira filha do casal, Maninha Lima. Dessa união, que resultou em casamento, anos depois,  nasceram mais dois filhos,  uma menina Ângela  e um rapaz, que, infelizmente, o destino lhe fez enterrar, negando o casal a oportunidade de  ter um filho homem.

Nessa história marcada de perdas, veria a incluir a filha mais velha, Ana Maria, que meses depois de ter sido mãe, acabaria por perder a filha, e também por falecer.

Após a união com Capitão Chico, a vida de Cacai mudou, as lutas e sacrifícios para sustentar a família passaram à história, mas esta sãonicolauense nata, nunca esqueceu  as suas origens  e, sempre que tinha oportunidade se deslocava a São Nicolau para visitar a família e matar a saudade da sua Ribeira Prata. Na qualidade de mulher de Chico Capton, as viagens eram feitas com todo o conforto. Quer viajasse no Ribeira Brava, ou em qualquer outro navio, merecia sempre tratamento VIP, privilégio,  que era extensivo às amigas, que tivessem a sorte de viajarem com ela.

De  Fonte Dotor, o Casal passou a morar na rua de descobrimento;  as chegadas do navio  no Porto Grande à noite, obrigaram  Chico  a procurar  uma casa mais próxima do Cais.

Vitorino, irmão de Cacai, emigrante nos Estados Unidos, viria a falecer, e,  de indemnização, os  irmãos receberam 4.000$0/cada, e foi com esse valor que   comprou  uma casinha em Ribeira Bote, a casa onde vive hoje, mas que não chegou a habitar, durante a vida do marido.

Em 1977, a vida lhe atraiçoava e lhe marcava com mais um golpe, a morte do seu Chico.  com 71 anos, vivia pela segunda vez a dor da viuvez, restando-lhe o consolo e o amparo das três filhas e de um filho adoptivo, Jorge.

Para driblar a saudade mudou-se para a casa da filha Ângela, a convite desta, um anjo que Deus lhe presenteou para a amar e a cuidar, pois a morte acabaria por lhe levar a única filha que restava do primeiro casamento, e,  os restantes filhos, Maninha Lima e Jorge,  o filho adoptivo, o destino os conduziu para terra longe, à procura de uma vida melhor.

Cacai, esta mulher corajosa, que durante a sua longa vida experimentou apenas o trabalho doméstico, amava as lides da casa, a filha Ângela, mulher trabalhadora, teve o privilégio de ter a casa cuidada e as refeições preparadas pela mãe, que, apesar de carregar dezenas de anos, adorava ir ao mercado, pessoalmente, comprar o peixe fresco ou escolher a verdura, mais gostosa, para preparar as refeições da família.

E a roupa? O gosto para lavar e passar ainda mantém-se, e até bem pouco tempo, não abria a mão do prazer de lavar pessoalmente determinadas peças do seu vestuário.

A Cacai, cuja infância, juventude e madureza foram marcadas de profundas perdas, Deus reservou também grandes momentos de alegria e de felicidade, proporcionando-lhe a oportunidade de conhecer um homem, que lhe ofereceu a vida que os irmãos e o pai um dia idealizaram.

A esta centenária tem sido concedido o privilégio de desfrutar de uma velhice feliz, onde a amizade, a protecção, o amor e o carinho que recebe das filhas, principalmente do seu anjo, dos familiares dos amigos, se misturam numa simbiose perfeita.

E é graças às dádivas que a vida lhe ofereceu, à sua fortaleza de espirito, à sua vontade de viver, à sua determinação, coragem e cuidados, que tem recebido dos seus, e principalmente da sua Ângela que, hoje, os seus 3 filhos (duas filhas de sangue, um filho adoptivo), 10 netos, 13 bisnetos, 6 trinetos, dezenas de familiares e amigos, aqui presentes, têm o privilégio e o prazer testemunhar este marco, digno de registo e de aplausos; a comemoração de 11 décadas de história, de 110 anos de uma vida recheada de fortes emoções.

Feliz Aniversário Mã Cacai,

Que venham mais,

E uma  forte salva de palmas a esta GRANDE MULHER, A ESTE EXEMPLO DE CORAGEM.

 

Eva Gomes

Dezembro/2016

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